Entre os Pulmões e o Silêncio
- Marina Marino

- 18 de fev.
- 1 min de leitura

Vinte e um dias no limiar,
entre partir e permanecer,
não cabem em exames.
O corpo recebe alta
antes mesmo da alma entender o que aconteceu.
A caminho de casa,
carrego na pele as agulhadas,
as marcas roxas
e o coração disparado,
reaprendendo a respirar o mundo.
É uma travessia lenta
e profundamente interior.
Quando o pulmão falha,
a gente descobre o que é respirar.
E quando a respiração falha,
algo essencial fica nu.
A gente fica mais dentro,
mais silenciosa,
mais consciente da própria fragilidade.
O mundo perde o excesso.
Tudo o que era urgente encolhe.
Resta o essencial:
o ar entrando
o ar saindo
a vida, mínima.
É aí que o silêncio se impõe.
E é nele que se aprende
que fragilidade não é fraqueza.
Já não há urgência.
nem de fazer.
nem de entender.
O corpo, em silêncio,
refaz caminhos microscópicos.
O coração desacelera.
No silêncio,
negócio com o próprio sangue,
com as próprias células,
o direito de permanecer.
Vem um esgotamento profundo,
como se o mundo estivesse alto demais.
O ruído dói. Falar pesa.
E, por dentro, reorganizo a vida.
Fecho portas.
Abro janelas internas.
Escolho menos.
Acolho mais.
Eu quase parti.
E quem quase parte não volta igual.
Volta essencial.
Cada respiração agora é um milagre pequeno, discreto, mas absoluto.
Depois de quase morrer,
descansar é tratamento,
muita coisa já não é mais prioridade.
Estou viva.
Não sou mais pressa.
Não sou mais tempo.
Não sou mais mundo.
Sou quietude.
𝟭𝟱 𝙙𝙚 𝙛𝙚𝙫𝙚𝙧𝙚𝙞𝙧𝙤 𝙙𝙚 𝟮𝟬𝟮𝟲
𝘿𝙤𝙢𝙞𝙣𝙜𝙤 𝙙𝙚 𝘾𝙖𝙧𝙣𝙖𝙫𝙖𝙡




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