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Entre os Pulmões e o Silêncio


Vinte e um dias no limiar,

entre partir e permanecer,

não cabem em exames.

O corpo recebe alta

antes mesmo da alma entender o que aconteceu.


A caminho de casa,

carrego na pele as agulhadas,

as marcas roxas

e o coração disparado,

reaprendendo a respirar o mundo.


É uma travessia lenta

e profundamente interior.


Quando o pulmão falha,

a gente descobre o que é respirar.

E quando a respiração falha,

algo essencial fica nu.


A gente fica mais dentro,

mais silenciosa,

mais consciente da própria fragilidade.


O mundo perde o excesso.

Tudo o que era urgente encolhe.

Resta o essencial:

o ar entrando

o ar saindo

a vida, mínima.


É aí que o silêncio se impõe.

E é nele que se aprende

que fragilidade não é fraqueza.


Já não há urgência.

nem de fazer.

nem de entender.


O corpo, em silêncio,

refaz caminhos microscópicos.

O coração desacelera.


No silêncio,

negócio com o próprio sangue,

com as próprias células,

o direito de permanecer.


Vem um esgotamento profundo,

como se o mundo estivesse alto demais.

O ruído dói. Falar pesa.


E, por dentro, reorganizo a vida.

Fecho portas.

Abro janelas internas.

Escolho menos.

Acolho mais.


Eu quase parti.

E quem quase parte não volta igual.

Volta essencial.


Cada respiração agora é um milagre pequeno, discreto, mas absoluto.


Depois de quase morrer,

descansar é tratamento,

muita coisa já não é mais prioridade.


Estou viva.

Não sou mais pressa.

Não sou mais tempo.

Não sou mais mundo.


Sou quietude.


𝟭𝟱 𝙙𝙚 𝙛𝙚𝙫𝙚𝙧𝙚𝙞𝙧𝙤 𝙙𝙚 𝟮𝟬𝟮𝟲

𝘿𝙤𝙢𝙞𝙣𝙜𝙤 𝙙𝙚 𝘾𝙖𝙧𝙣𝙖𝙫𝙖𝙡



 
 
 

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